A linha ténue entre a demência e depressão no idoso: relato de caso

Joana Pinto Carneiro, Helena Cabral

Resumo



Introdução: Os problemas de memória em idosos são um motivo frequente de consulta em cuidados de saúde primários. Através desta queixa comum surgem desfechos clínicos distintos, importando a sua identificação precoce e orientação atempada. Segue-se um caso clínico ilustrativo de como abordar este motivo de consulta em cuidados de saúde primários, quais os potenciais diagnósticos, vertentes terapêuticas e respetivas especificidades no doente idoso.
Descrição do caso: Mulher, de 82 anos, viúva há dois anos, pertencente a uma família alargada. A utente vem à consulta trazida pela filha, sua cuidadora informal. A familiar refere que a mãe parece apática, triste e mais sonolenta nos últimos meses. Relata ainda que, de forma progressiva, deixou de participar nas tarefas de casa, não quer sair, evidenciando recorrentemente um discurso repetitivo e arrastado. Mais recentemente apresenta lapsos de memória episódicos e lentidão psicomotora. No decorrer da consulta são ilustrados alguns episódios do quotidiano, designadamente dificuldade crescente nos trocos da mercearia, em reconhecer nomes de “conhecidos” e de determinados objetos, apresentando ainda episódios recorrentes de desorientação espacial (“perde-se por diversas vezes na via pública”). Foram colocadas como possíveis hipóteses de diagnóstico: quadro depressivo com declínio cognitivo associado ou processo demencial inicial com sintomas depressivos. A doente inicia prova terapêutica com sertralina, demonstrando melhoria significativa do humor, do desempenho funcional e avaliação cognitiva sem alterações.
Comentário: A depressão não é uma consequência natural do envelhecimento. A maioria dos idosos que recorre aos cuidados de saúde primários prioriza as queixas somáticas em detrimento do sentimento de tristeza que facilmente é reprimido. Por outro lado, poder-se-á estar a tratar pseudodemências em virtude de alterações cognitivas, potencialmente reversíveis com tratamento antidepressivo/psicoterapia.

Palavras-chave


Demência; Défice Cognitivo; Depressão; Idoso

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DOI: http://dx.doi.org/10.32385/rpmgf.v32i2.11735

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