“O coração na barriga” – A propósito de um caso clínico

Jessica Xastre Perpetuo, Márcia Pereira Leite, Paulo Guedes

Resumo


Introdução: O Aneurisma da Aorta Abdominal (AAA) constitui um importante problema de Saúde Pública. Apresenta, na sua história natural, uma fase de expansão assintomática, com oportunidade de tratamento eletivo, que se tem demonstrado efetivo e de baixo risco, comparativamente à fase sintomática. Esta entidade clínica associa-se a uma elevada mortalidade, podendo esta ser reduzida significativamente perante tratamento cirúrgico eletivo.

Descrição do caso: Doente do sexo masculino, de 66 anos, licenciado, atualmente reformado, casado e com duas filhas, pertencente a uma família funcional, nuclear, na fase VIII do Ciclo de Duvall e à classe média de Graffar. Como antecedentes pessoais de diversos fatores de risco cardiovasculares, medicado em conformidade, que recorre à consulta aberta da Unidade de Saúde Familiar, em dezembro de 2015, por apresentar náuseas desde há dois dias e sensação de peso e palpitações no abdómen com cerca de dois meses de evolução, descrevendo como “parece que tenho o coração na barriga”. A única alteração ao exame objetivo diz respeito a uma tumefação abdominal pulsátil com cerca de 7 cm de diâmetro. Por suspeita de AAA foi referenciado ao Serviço de Urgência (SU). No SU foi confirmado a presença de AAA justa-renal, com cerca de 9,9 cm de diâmetro. Foi internado para decisão clínica, tendo sido submetido a tratamento cirúrgico do aneurisma. O pós-operatório decorreu com intercorrências, nomeadamente trombose da artéria renal direita, e consequente hipoperfusão do rim direito (com tentativa de repermeabilização sem sucesso), e hemorragia digestiva por úlcera duodenal. Em consultas de seguimento pelo Médico de Família (MF), após a alta, apresentava-se muito debilitado física e psiquicamente. Procedeu-se ao acompanhamento, com ênfase no suporte emocional e familiar, à reavaliação das condições clínicas que surgiram durante o internamento, bem como ao reajuste da medicação habitual. 

Comentário: A possibilidade da deteção precoce do AAA, através de rastreio, surge como uma medida capaz de modificar a sua evolução natural. Assim, este caso pretende refletir sobre a efetividade do rastreio, na presença de fatores de risco. Pretende, igualmente, realçar a importância do MF no diagnóstico precoce de um problema grave e na gestão das complicações físicas e psicológicas após a alta de um internamento hospitalar. 


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DOI: http://dx.doi.org/10.32385/rpmgf.v34i5.11900

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