Quando os vegetais são demais: um caso de carotenodermia

Raquel Xavier Martins Costa, Hugo Manuel de Azevedo Lourenço Lopes

Resumo


Introdução: Os carotenos são um pigmento ubíquo na natureza, inicialmente identificado na cenoura (do inglês “carrot”). Do pigmento ingerido, 10% é absorvido inalterado e transportado ao fígado sendo o restante convertido, no próprio intestino, em vitamina A. O excesso é excretado pelo cólon e epiderme. Contudo, quando elevado, o estrato córneo, lipossolúvel, reabsorve e acumula-o conferindo uma coloração amarelada à pele. As crianças, quer pela imaturidade dos sistemas de conversão enzimáticos, quer pela dieta e modo de preparação dos alimentos, estão mais susceptíveis a apresentar níveis elevados de carotenos no sangue (carotenemia) e na pele (carotenodermia).

Descrição do caso: G.A.F., do sexo masculino, é trazido à consulta de vigilância dos 9 meses. Apresenta coloração amarelada nas palmas das mãos e plantas dos pés. Sem outras queixas ou intercorrências de registo. Ao exame objectivo, apresenta escleras e mucosa oral de coloração normal. Mãe refere consumo excessivo de cenoura e batata doce na sopa. É colocada a hipótese de carotenodermia e explicada aos pais a benignidade da situação.

Comentário: Apesar de outras causas, além da dieta, serem extremamente raras em crianças, existe associação entre carotenemia e várias patologias, nomeadamente diabetes mellitus, hipotiroidismo, anorexia nervosa e discinésia biliar que terão de ser investigadas caso não se resolva o quadro com as alterações dietéticas. Os carotenos estão presentes nos alimentos como cristais encapsulados. Triturá-los rompe as membranas celulares e torna-os mais disponíveis para absorção, tornando a alimentação infantil à base de purés mais propensa ao seu desenvolvimento. Independentemente da cor, vários alimentos (por ex. brócolos e feijão verde) possuem níveis elevados de carotenos e devem ser tidos em conta na entrevista clínica.

Não obstante a benignidade do quadro, a sua correta identificação é de extrema importância por forma a evitar a, não tão rara, confusão diagnóstica com icterícia e subsequente estudo desnecessário e dispendioso. 


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DOI: http://dx.doi.org/10.32385/rpmgf.v36i1.12280

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