Disforia de género: quando ninguém está atento
DOI:
https://doi.org/10.32385/rpmgf.v41i5.14026Palavras-chave:
Cuidados de saúde primários, Integração de cuidados, Saúde transgénero, prevenção, Disforia de géneroResumo
Introdução: A saúde transgénero continua a constituir um desafio para os profissionais de saúde, dada a rápida evolução dos conceitos de género e sexualidade, com frequentes atualizações de nomenclaturas e surgimento de novas identidades de género. Por se manter um tema sensível e fraturante na sociedade gera sofrimento, estigmatização, isolamento e problemas de saúde. Além disso, verifica-se alguma inércia dos profissionais em abordar estes temas em consulta, o que pode conduzir a falhas na identificação de pessoas em sofrimento, por vezes incapazes de pedir ajuda espontânea e atempadamente.
Descrição do caso: Utente do sexo biológico masculino, 56 anos de idade, solteira, desempregada, vive com pais que apoiam financeiramente. Recorre à consulta do médico de família (MF) por agravamento da ansiedade, crises de pânico e labilidade emocional. Após entrevista clínica assume não se identificar com o género atribuído à nascença, identificando-se como mulher. Nunca tinha exteriorizado essa identificação, embora sentisse essa incongruência desde a adolescência. Uma história clínica cuidada permitiu a identificação do sofrimento e a referenciação para consultas hospitalares e de psicologia, essenciais para o sucesso terapêutico.
Comentário: O sofrimento gerado pela incongruência de género compromete o bem-estar biopsicossocial. Os cuidados de saúde primários, como primeiro ponto de contacto e espaço de maior proximidade, devem estar atentos a sinais de sofrimento, manifestar disponibilidade e explorar ativamente as dimensões do género e da sexualidade em consulta. Têm ainda um papel crucial na gestão de comorbilidades e articulação com cuidados de saúde secundários e redes de apoio, proporcionando acompanhamento personalizado e integrado.
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