Sífilis ocular: um relato de caso
DOI:
https://doi.org/10.32385/rpmgf.v41i6.13882Palavras-chave:
Cuidados de saúde primários, Sífilis secundária, Relato de casoResumo
Introdução: Desde o ano 2000 que a incidência de sífilis tem aumentado, representando atualmente um importante problema de saúde pública. A sífilis ocular pode ocorrer em qualquer estadio da doença, com manifestações em partes diferentes do olho. O presente caso clínico destaca a importância dos cuidados de saúde primários na abordagem da doença e posterior articulação com outras especialidades.
Descrição do caso: I.B., utente do sexo feminino de 63 anos de idade. Antecedentes pessoais de depressão, epilepsia, hipertensão arterial, surdez, tabagismo e doença cardíaca isquémica e contexto socioeconómico precário. Recorre a consulta no seu centro de saúde em janeiro/2023, após observação por oftalmologista, por manter queixas de olho vermelho à esquerda, acompanhado de dor e desconforto sem melhoria com a medicação tópica prescrita. À inspeção apresentava inflamação da esclera, grande congestão vascular e hiperemia difusa, sem secreções, que poupava a zona central. Dada a estagnação da sintomatologia, ausência de resposta à medicação e os antecedentes pessoais da utente, considerou-se imperativo investigar causas secundárias de olho vermelho. Um mês depois surgiram várias lesões circulares nas mãos e duas na zona do períneo, coincidentes com resultados serológicos positivos para sífilis. Referenciada à consulta de oftalmologia e infeciologia, é diagnosticada com panuveíte sifílica. Iniciou terapêutica com penicilina endovenosa até perfazer 14 dias. Realizou punção lombar e RMN cerebral para despiste de neurosífilis, que não revelaram alterações. A RPR pós-terapêutica indicava uma redução de quatro vezes o valor de titulação pré-terapêutica, sinónimo de sucesso.
Comentário: Este caso de sífilis, considerada por muitos autores “a grande imitadora”, demonstra a importância da abordagem holística do médico de família: além de ser o primeiro a observar os sintomas iniciais da doença, muitas vezes inespecíficos, consegue integrá-los com os antecedentes familiares e pessoais, o que, aliado a um elevado grau de suspeição, contribui para o diagnóstico.
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