Disgeusia: a propósito de um caso clínico

Óscar de Barros, João Carlos Ribeiro, Ângela Ferreira, Hélder Ferreira, António Paiva

Resumo



Introdução: A distorção persistente da sensação gustativa (disgeusia), sendo transitória ou permanente, pode ter influência significativa no quotidiano dos doentes, relacionando-se com perda ponderal, anorexia, desnutrição, quadros depressivos e redução significativa da qualidade de vida. A disgeusia pode ter várias causas, sendo uma delas a cirúrgica, nomeadamente a amigdalectomia.
Descrição do caso: Doente do sexo feminino, 38 anos, com história de amigdalite crónica bilateral. Realiza amigdalectomia por lâmina fria e eletrocauterização de pontos hemorrágicos da loca amigdalina, sem complicações cirúrgicas. Inicia quadro de disgeusia caracterizada pela não discriminação dos gostos, referindo que tudo parecia amargo. Na consulta de seguimento hospitalar em otorrinolaringologia (ORL), seis meses após cirurgia, efetuou-se avaliação gustométrica por tiras teste, revelando alterações na discriminação gustativa, referindo o gosto amargo, mesmo quando estimulada com tiras ácidas, doces ou salgadas. A doente iniciou reabilitação gustativa diária, fazendo associação mental com a sensorial. Repetiu-se gustometria um ano após cirurgia. A doente melhorou bastante, mas manteve uma disgeusia seletiva para o amargo na presença de estímulo salgado em baixa concentração.
Comentário: A disgeusia é uma complicação rara da amigdalectomia e de elevada importância para o doente. O procedimento cirúrgico pode atingir os nervos responsáveis pela transmissão sensorial gustativa, direta ou indiretamente, não havendo muitas opções terapêuticas. Estes casos estão subreportados na literatura e os que foram tiveram evolução benigna. A disgeusia pode ser várias etiologias, como higiene oral precária, cirurgia, infeção e tabaco, diabetes, doenças autoimunes, fármacos antimicrobianos, anti-hipertensores e anti-inflamatórios. Nos cuidados de saúde primários, as queixas gustativas são vagas e sem relação patológica aparente, não existindo em Portugal dados acerca da incidência da mesma. É importante sensibilizar os clínicos para esta patologia. Não devemos descuidar a queixa do doente, quer pelo impacto que a mesma tem na qualidade de vida do mesmo, quer pela possibilidade de haver uma patologia de base tratável. É nosso papel avaliar, orientar e tratar.

Palavras-chave


Disgeusia; Paladar; Amigdalectomia

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DOI: http://dx.doi.org/10.32385/rpmgf.v31i4.11555

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