Quando o exame neurológico não tranquiliza: um caso de doença de Creutzfeldt-Jakob

Autores

DOI:

https://doi.org/10.32385/rpmgf.v38i4.12642

Palavras-chave:

Doença de Creutzfeldt-Jakob, Doenças priónicas, Demência

Resumo

Introdução: A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é a mais comum das doenças priónicas humanas. A maioria dos casos é esporádica e apresenta-se como demência rapidamente progressiva. Este caso pretende alertar para a importância da suspeição inicial de uma DCJ, apesar da sua raridade, de modo a reconhecer os primeiros sinais e sintomas, muitas vezes inespecíficos, e realizar uma referenciação célere aos cuidados de saúde secundários para diagnóstico e seguimento precoces.

Descrição do caso: Mulher de 53 anos, sem antecedentes de relevo, que recorreu a consulta aberta da sua Unidade de Saúde Familiar por tonturas, desequilíbrio e humor distímico. Dias mais tarde apresentou-se com nistagmo horizontal, ataxia da marcha e dismetria dos membros superiores, pelo que foi orientada para observação por neurologia. O quadro clínico evoluiu em poucas semanas, com dificuldade em executar atividades da vida diária, apatia, discurso pobre, dificuldades na memória e apraxia para vestir. O exame neurológico revelou hiperreflexia esquerda, reflexo cutâneo-plantar esquerdo em extensão, postura distónica de ambos os membros superiores e mioclonias espontâneas de novo, com startle marcado com estímulo sonoro. A ressonância magnética (RM) mostrou sinais sugestivos de DCJ. A eletroencefalografia (EEG) e a proteína 14-3-3 positiva suportaram o diagnóstico. O estado neurológico deteriorou-se rapidamente, com evolução para mutismo acinético, tetraparésia espástica e morte. 

Comentário: A DCJ deve ser considerada perante a combinação de demência rapidamente progressiva e mioclonias estimulossensitivas. Manifestações cerebelosas constituem sintomas de apresentação em 20% a 40% dos casos. A RM, a proteína 14-3-3 e o EEG são úteis para o diagnóstico. O diagnóstico definitivo requer a combinação com os achados neuropatológicos. O tratamento é apenas de suporte e o desfecho fatal, sendo fulcral mostrar disponibilidade e apoio nas questões médicas, psicológicas e sociofamiliares.

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Biografias do Autor

  • Gisela Marcelino Santos, USF Nova Via
    Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na USF Nova Via
  • Maria Ferreira, USF Nova Via
    Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na USF Nova Via
  • Marta Pinheiro, USF Nova Via
    Interna de Formação Específica de Medicina Geral e Familiar na USF Nova Via
  • Ângela Maganete, USF Nova Via
    Consultora em Medicina Geral e Familiar na USF Nova Via

Referências

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Publicado

13-09-2022

Como Citar

Quando o exame neurológico não tranquiliza: um caso de doença de Creutzfeldt-Jakob. (2022). Revista Portuguesa De Medicina Geral E Familiar, 38(4), 382-6. https://doi.org/10.32385/rpmgf.v38i4.12642