Os instrumentos de avaliação familiar como aliados da adesão terapêutica: um relato de caso
DOI:
https://doi.org/10.32385/rpmgf.v40i5.13474Palavras-chave:
Adesão terapêutica, Hipertensão arterial, Família, Saúde da famíliaResumo
Introdução: A adesão terapêutica é um desafio frequente da medicina geral e familiar (MGF). O objetivo deste caso clínico é sensibilizar para o recurso a instrumentos de avaliação familiar como um aliado na gestão da adesão terapêutica.
Descrição do caso: Mulher, 77 anos, casada, com diagnóstico de perturbação de ansiedade, hipertensão arterial (HTA) e dislipidemia. Apresentava registos de pressão arterial (PA) elevada nas consultas de seguimento ao longo dos últimos quatro anos, mas mantinha-se resistente a qualquer alteração terapêutica sugerida pelo médico de família. Perante este contexto convocou-se a utente para a realização de uma avaliação familiar, no sentido de perceber os seus receios, crenças e expectativas. Apurou-se uma história de conflito com o cônjuge, com um passado de adultério que esteve na origem de uma perturbação depressiva grave, com necessidade de polimedicação. Perante a recordação deste período da sua vida, qualquer tentativa de instituição terapêutica gerava à utente uma grande ansiedade. Estabeleceu-se como plano a revisão da terapêutica atual, tentando otimizá-la sem realizar alterações na quantidade de comprimidos diários. Nas consultas subsequentes verificou-se uma total adesão à terapêutica instituída.
Comentário: Este relato de caso mostra dois aspetos muito importantes na prática da medicina geral e familiar. Por um lado, reforça a importância dos instrumentos de avaliação familiar na compreensão do contexto dos utentes. Por outro lado, mostra também a necessidade de adaptação do médico quando se depara com casos em que a terapêutica ótima à luz do conhecimento científico atual não é a mais adequada para o utente, que carrega consigo um conjunto de crenças, expectativas e quadros de valores. Chama-se, assim, a atenção para a necessidade das chamadas patient-tailored interventions – dever-se-á tentar, à luz da evidência científica atual, ajustar as expectativas do médico à realidade dos utentes e providenciar uma terapêutica que seja o mais individualizada possível.
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Referências
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